Qual é a sua lógica?

Outro dia me vi novamente intrigada com algo que, na verdade, sempre me fez matutar. O tema recorrente me parecia ter a ver com lógica. Algumas situações corriqueiras, simples, que ocorrem nos mais variados âmbitos (política, vida doméstica, escolar, etc) parecem escantear profundamente a lógica e, por incrível que pareça, argumentos exatos, calculáveis e evidências precisas são atropelados ou simplesmente não escutados. O intrigante, o que não se resolvia nas minhas reflexões era: como pode existir conflito em torno de uma informação cristalina, limpa e purificada pelos processos e argumentos que a lógica, esta ciência reconfortante, nos alcança?

Entendo perfeitamente que certas questões são complexas, paradoxais, difíceis de equacionar e em relação a estas não me impaciento. Pelo contrário. Respeito seu ritmo de elaboração. Mas, questões lógicas e argumentos precisos, como podem ser destorcidos ? Só pode ser má fé ou malcriação com esta ciência precisa e tão bem-vinda! Não pode ser que alguém, podendo aplicar a lógica, abra mão dela!

Pois bem, esta era a questão intrigante. Você já presenciou duas pessoas discutindo e argumentando sobre algo, afirmando as mesmas coisas e conseguindo discordar entre si apesar de dizerem o mesmo? A isto me refiro. Que agonia não ver lógica em uma discussão, ou, ainda pior, ver a lógica clara nos argumentos e os litigantes abrindo mão de a utilizarem pelo (o que me parecia!) capricho de inverter, sem cerimônia, qualquer ordem ou conclusão. Talvez a pergunta correta fosse: “por que distorcemos argumentos lógicos?”.

Utilizemos um caso simplório, uma conversa entre colegas de trabalho:
– Liguei ontem para pegar um documento e você não atendeu o telefone!
– É verdade, estava no silencioso, pois no almoço não costumo atender ligações. Você pensou em usar o interfone, ligar para o telefone fixo, para um outro colega do escritório? (esta seria a argumentação lógica).
– Você me fez de bobo!
– Mas, por que você não utilizou outra forma de contato? (nova argumentação lógica).
– Você me fez de bobo!

Que agonia! Isto é o que eu sinto em cenas assim. Há uma lógica, há uma explicação plausível para uma sequência de fatos e uma distorção subsequente. Foi-se o boi com a corda e a lógica água abaixo.

Enfim, demorei em perceber que estes episódios não pertencem ao campo dos “assuntos simples e fáceis de resolver com argumentação, fatos e dados”. Disfarçados de questões rotineiras, eles estão representando assuntos mal resolvidos entre as pessoas e estes fazem pressão, querem ser expressos de alguma forma, mesmo pela pessoa que mais evita conflitos. O assunto mal resolvido é poderoso e, se não sai pela via da clareza (“precisamos conversar sobre este assunto que não está bem resolvido, algo me passa pela cabeça, me preocupa. Preciso que seja considerado…”) vai achar um jeitinho, vai esquivar-se, vazar por entre boas maneiras e belas frases, vai atravessar-se arrebentando a lógica até que seja ouvido. É como se pudéssemos escutar a corrente que está abaixo da superfície: “pouco importa interfone ou telefone, o que quero mesmo comunicar é outra coisa que, desde que começou a incomodar, aguarda silenciosamente por uma brecha para aparecer. Quero lhe dizer que, desde que você recusou meu convite para um café me senti ofendido e ignorado”.

O engano é pensar que apenas assuntos complexos carregam dificuldades, discórdias ou conteúdos subjacentes. Pelo contrário, assuntos simples são utilizados com frequência como uma via de expressão para os entraves que não consideramos, que não acolhemos.

Controlar, calar um assunto não vai deixa-lo quieto. E sua expressão, camuflada em outros assuntos, tampouco irá servir, pois a discórdia só tende a aumentar. Nossas brigas ou provocações recorrentes e sem desfecho podem estar carregando um passageiro clandestino. Este precisa ser acessado, pois irá a todo momento pedir passagem.
Uma maneira de percebermos onde carregamos este tipo de assunto é, justamente, nas questões simples. Naquelas onde, apesar de haver lógica e clareza, insistimos em complicar as coisas, em deturpar o que sentimos, o que pensamos, expressando com disfarces algo além daquilo que está sendo dito. E, mais fácil do que procurarmos no outro este hábito é identificarmos em nós, antes de mais nada, os momentos onde descartamos os dados e as evidências preferindo seguir em conflito e atacando a lógica.

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