Todas as fases de um ciclo

Diferentemente da natureza, tentamos viver de forma constantemente ascendente. Pensamos vida, produtos e carreiras com a expectativa de um constante crescimento. Não incluímos em nosso ritmo a desconstrução, a desaceleração, o intervalo e o descanso. Esta busca me faz lembrar dos pés de caqui que com força admirável parecem carregar mais frutos do que seus galhos suportam, mas os mil caquis surgem nesta estrutura que lhes dá suporte. Será que brincamos de ser pés de caqui tentando empilhar sucessos e ascensão até ficarmos com dor nas costas?

As árvores não se agarram às suas folhas quando chega o outono. Nós, ao contrário, vivemos agarrados àquilo que já está querendo ir. Assim, usando “super-cola” na folha já amarelada, não abrimos espaço para respirar, para ficarmos leves por um tempo, aguardando a surpresa da folha nova que virá.

Talvez nos falte confiança para os outonos e invernos da vida, estes momentos onde a estrutura segue sem enfeites, sob a terra ou apenas em um tronco firme. Confiança no que já foi feito, no que foi nutrido e construído, e naquilo que virá. Confiança em “ser” sem flores aparentes. A falta de flores, frutos ou folhas vicejantes parece nos esvaziar de olhares de admiração. Seria esta nossa necessidade de constantemente buscar florir?

Parece que criamos uma ideia pouco natural sobre os diversos períodos da vida e, ao não respeitarmos nossos ciclos, vivemos na expectativa de movimentos eternamente ascendentes. Perdemos a conexão com nosso ciclo interno, com o adubo que impulsiona de dentro para fora novas raízes e novos brotos. Desta forma nos cansamos e nos frustramos e mesmo assim evitamos a tristeza e não a incluímos no viver. A tristeza parece nos estacionar e por isso deve ser evitada, não olhada e não sentida. Coletivamente nos espelhamos ou valorizamos as etapas floridas e nos aprisionamos em uma linha reta, interminável, que nos esgota.

O ciclo e os tempos que evitamos acabam por nos fazer falta. Há tempo de florescer, há tempo de deixar ir, há tempo de aguardar o retorno e nutrir as raízes (no invisível movimento das raízes, não floridas, há uma pulsante etapa de renutrir-se) e há o tempo de preparar-se para as surpresas de uma vida.

A possibilidade de aceitarmos partes aparentemente sem cor em nossos ciclos pode ser um bom modo de fazermos as pazes com o ritmo que não nos permitimos. Podemos ainda nos alegrar pelo fato de que de nossas flores e frutos a cada estação podem ser novidades. Nem sempre vamos nos ver surgir como a mesma fruta da estação passada. Com alguma dose de curiosidade ou apreensão podemos ver brotar de nossos novos ciclos uma outra fruta, uma outra flor. Não estamos pré-determinados como um pé de caqui. Esta mágica assusta, mas evitá-la nos adoece.

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